Por que é que os autistas falam como se fossem vilões de anime? (Tradução para [pt-br])

Nota do Tradutor: Este texto foi originalmente publicado pelo blog e podcast Christianity on the Spectrum, dedicado a destrinchar tópicos sobre o espectro autista, experiências de vida em sociedade e aplicações da teologia cristã nas vidas de pessoas com autismo, e é publicado neste blog com a autorização expressa do autor. O link do texto original em inglês está aqui, para aqueles que quiserem comparar com o texto desta tradução.
Entre colchetes quadrados ("[]") estão anotações que inseri para auxiliar o leitor com características do texto original que não são imediatamente reconhecidas pelo público sem contato constante com a língua inglesa, como dar o equivalemte de uma milha em quilômetros, ou repor no texto o termo originalmente utilizado em inglês, cuja tradução para o português nem sempre é plenamente equivalente. Como os gráficos estavam em inglês e não tinham legendas logo abaixo das imagens, tomei a liberdade de inserir os textos em português para ajudar o leitor a compreender o que está sendo dito.

Aviso. Creio que foi dito por um homem de certa importância: “Aquele, dentre vós, que é sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. Sobre esse assunto, nada me daria mais prazer do que atirar pedras, isento de qualquer uma das máculas que descrevo. Infelizmente, tenho vários anos de podcasts que atestam meu sotaque de autista, intencionalmente atenuado, mas ainda assim bastante presente. Portanto, deixe-me começar este artigo confessando que, em algum momento da minha vida, tive a maioria dessas características na minha voz e, em grande parte, ainda as tenho. As piadas do artigo são feitas tanto às minhas custas quanto poderiam ter sido feitas às suas. Elas têm o objetivo de ser feitas de modo autodepreciativo e bem-humorado. Se, como eu, você se sente muito inseguro em relação à sua voz e ao seu sotaque autista, meu melhor conselho é encontrar outra coisa com que se preocupar. No contexto mais amplo, isso realmente não é nada demais, e as pessoas na sua vida com quem vale a pena se importar não ligam para isso.

Uma das perguntas mais frequentes que recebo de curiosos a respeito das pessoas autistas é “Tá, eu entendo essa coisa toda dos cérebros diferentes e tudo o mais, mas, na boa, por que é vocês falam desse jeito?” Se você não conviveu muito com pessoas autistas, provavelmente não sabe do que estou falando. Se já conviveu conosco, sabe imediatamente o que quero dizer. O que perguntam diz respeito ao sotaque do autismo.

Não há muito material publicado sobre o sotaque do autismo ou sobre o motivo de sua existência. Ele costuma ser mencionado em manuais diagnósticos e guias para profissionais clínicos e avaliadores, mas geralmente não passa de algumas frases mencionando algo do tipo “Fica o aviso: esses caras meio que soam como naturalistas vitorianos condescendentes que viajaram no tempo.” Conquanto o sotaque apareça na literatura, o que ele é de fato e a razão pela qual o temos não são explorados. E embora, normalmente, eu tentasse fazer a análise minuciosa necessária para discutir adequadamente esse assunto, seguindo a respeitável tradição de influencers autistas por toda a internet, decidi, em vez disto, especular descaradamente sobre o tema. Feitas as ressalvas, isto aqui não é mera especulação; tenho um bocado de experiência em #ouvir #vozes #autistas [#ActuallyAutistic]. Num sentido bem literal, eu ouvi, aprendi e fiz meu dever de casa. Fiz mais de 650 entrevistas com autistas, falei com centenas mais, e ouvi horas de sotaques autistas a fio, através de vídeos, podcasts e chamadas de voz no Discord.

Definindo o “sotaque autista”

O sotaque do autismo não é algo único. Tal qual o Megazord dos Power Rangers, ele é melhor compreendido como um conjunto de características diferentes que unem seus poderes para fazer você soar como um velho livro didático que ganhou vida graças a um mago bastante excêntrico. A configuração específica desse Megazord varia de pessoa a pessoa e é feita de uma das panóplias de permutações e combinações de características acentuais disponíveis. Alguns sotaques têm todas as características; a maioria deles terá somente uma seleção delas. A intensidade de cada característica também varia de pessoa para pessoa, o que altera o nível de poder do Megazord resultante. Provavelmente é incorreto chamá-lo de “sotaque”, pois vai muito além da pronúncia em isolamento. O sotaque, como decidi chamá-lo, é um jeito distinto de falar, que abrange a pronúncia, o tom de voz, a variação tonal, escolha de vocabulário e ritmo. Decidi chamá-lo de “sotaque” porque muitas pessoas autistas passam pela desconcertante experiência de serem questionadas a respeito do seu país de origem, mesmo estando em sua própria cidade natal.

Como tentei explicar por meio de metáforas de Power Rangers meticulosamente edificadas, a singularidade do sotaque autista vem da maneira em que as qualidades se associam. Normalmente, cada característica individual tende a apresentar uma distribuição bimodal assimétrica na população autista. Tomemos, por exemplo, a característica “controle de volume”. Tentei ao máximo explicar o que quero dizer usando o MS Paint para representar, a grosso modo, a experiência que vivi ao ouvir outras pessoas autistas me explicarem os detalhes de suas estranhas dermatopatias em uma cafeteria, num volume que presumo ter sido criado pelas pressões seletivas da evolução para afugentar animais no raio de uma milha [1,61 km].


Gráfico 1. Comparativo entre os volumes de voz de pessoas autistas (linha em azul) e não-autistas (linha em vermelho).

O sotaque se apresenta de diversas formas, mas possui características consistentes entre culturas, regiões e gêneros (embora esses fatores também causem variações interessantes). Se você não está familiarizado com o assunto e gostaria de conhecer alguns exemplos, Temple Grandin e John Elder Robison têm sotaques típicos de pessoas com autismo, com diferentes inflexões regionais.

Existem quatro categorias de características que se situam ao longo de… bem… um espectro…

Tonalidade e volume

  1. Ausência de variação tonal - Isso costuma ser descrito pelos profissionais da área como um afeto monótono ou plano. Não se trata apenas de uma dicção monótona, mas também da falta de expressão emocional na voz. Muitas pessoas autistas precisam explicar repetidamente às pessoas que estão felizes ou chateadas, pois essas emoções amiúde não transparecem na maneira como falam.
  2. Tonalidade incomum - Conquanto os tons muitas vezes permaneçam constantes, muitos de nós podem ser bastante desafinados. Frequentemente descreve-se que as pessoas autistas têm vozes guinchantes, anasaladas ou rilhadoras. Normalmente, antes de me encontrar com uma mulher, se alguém me avisa que ela pode ter uma voz bastante estridente, sei que nós vamos nos dar muito bem.
  3. Controle de volume atípico - Pessoas autistas costumam falar muito alto ou muito baixo. Quer seja muito alto, quer seja muito baixo, geralmente falam em um volume inadequado para o local em questão. Os autistas costumam relatar que se sentem incomodados porque todos acham que eles estão gritando. Se você já participou de um encontro de autistas em um bar, provavelmente conhece bem a experiência de ser encurralado por uma autista a compartilhar, em voz alta e com entusiasmo, detalhes incrivelmente específicos sobre os haréns da dinastia abássida, num volume que sugere que as informações que ela está a compartilhar são de interesse público.

Pronúncia

  1. Hipercorreção da pronúncia - Pessoas com autismo costumam pronunciar com excessiva clareza determinados sons de vogais ou consoantes. Enquanto muitas pessoas tendem a juntar os sons de uma palavra ao pronunciá-la — como dizer “Ri(w)-di-ja-nê-ro” em vez de “Ri-u de Ja-nei-ru” —, autistas costumam insistir rigidamente em pronunciar cada sílaba e cada consoante. Normalmente, há uma fixação naquilo que a pessoa autista decidiu ser a pronúncia “adequada” e “correta”.
  2. Dicção à staccato - Além de não pronunciarmos as consoantes e as vogais de forma indistinta, tendemos a não arrastar as palavras umas às outras, o que pode conferir aos padrões de fala uma elocução à staccato.

Cadência e ritmo

  1. Falta de reciprocidade - Os padrões de fala das pessoas com autismo muitas vezes não levam em conta o fato de que se espera que a outra pessoa participe da conversa. Nossos padrões de fala, mesmo em conversas recíprocas, muitas vezes parecem mais próximos de uma série de monólogos planejados, com pausas para perguntas, do que de conversas dinâmicas com intercâmbios. Muitas vezes é possível ter a impressão de que, se você trocasse de lugar com uma série elaborada de post-its, a elocução dos diálogos não mudaria substancialmente.
  2. Ritmo discursivo atípico - A fala natural tem um certo ritmo no qual as palavras e frases meio que parecem fluir, parando e recomeçando em momentos naturais. Essa característica frequentemente está ausente dos padrões de fala dos autistas. Isso geralmente se transfigura na forma de alguém a falar com poucas pausas naturais, ou com pausas estranhas e aparentemente aleatórias.
  3. Velocidade - Normalmente, a maioria das pessoas autistas que entrevisto fala bem rápido. Também há alguns de nós que falam de modo tão dolorosamente lento que é difícil perceber se já terminaram a frase ou se ainda estão preparando a resposta.
  4. Dicção preparada e planejada - Uma característica da cadência que é difícil de descrever até ser vista é o aspecto ensaiado e planejado de muitos padrões de fala das pessoas autistas. Um comentário frequente ouvido por autistas é que eles soam como se fossem um livro falante. Na verdade, sua fala não é planejada, mas seus maneirismos, tom de voz, escolha de palavras e elocução apresentam todas as características de um discurso pré-escrito.
  5. Mimetismo parcial - É comum que pessoas autistas falem como se estivessem fazendo uma imitação perturbadora de uma outra pessoa. Normalmente, esse alguém é parte de alguma mídia que elas gostam de consumir. Muitos autistas mais jovens acabam imitando vozes de desenhos animados bem estranhas porque assistem um monte de animes. Além disso, por mais estranho que possa parecer, já conheci um bom número de meninas autistas que desenvolvem um sotaque transatlântico por assistirem a filmes antigos.

Vocabulário

  1. Ausência de gírias - Pessoas com autismo evitam usar gírias, atalhos linguísticos, contrações e vocabulário regional específico. Frequentemente, elas se recusam a usar gírias por questão de princípio e insistem que esse é “um jeito errado de falar”.
  2. Terminologia clínica e técnica - Autistas costumam optar por um vocabulário clínico e técnico específico, mesmo quando não faz sentido usar esse tipo de vocabulário num determinado contexto. Isso significa que, às vezes, verás crianças de doze anos dizerem que têm uma escoriação na epiderme, em vez de dizer que ralaram a pele.
  3. Vocabulário anacrônico e arcaico - Muitas vezes, as pessoas autistas escolhem um vocabulário anacrônico, arcaico e estranho. Quando você conversa com algumas delas, muitas vezes parece que elas estavam no meio de uma frase normal e, de repente, o seu cérebro trocou algumas palavras por sinônimos que caíram em desuso no século XVIII. A mãe de uma das minhas queridas amigas autistas, Marie, certa vez teve que explicar a ela que não deveria usar o termo “ejacular” para descrever um menino do grupo da igreja que gritou de repente e com veemência, mesmo que a palavra fosse empregada desta forma nos seus livros.
  4. Formalidade por padrão - Se um autista se ver em dúvida entre usar linguagem informal ou formal, ele normalmente optará por usar a linguagem formal. Isso é particularmente verdadeiro quando ele não consegue determinar qual das duas deve usar perante situações sociais ambíguas. Isso quer dizer que pessoas autistas costumam ser excessivamente formais ao se dirigirem a você e dizem coisas como: “Saudações, é um prazer conhecer-vos”, em vez da saudação que a situação exige, ou seja, “Oi”.

Fatores de variação

As seguintes características tendem a ter um efeito perceptível na força e na intensidade do sotaque:
  1. Gênero – Homens autistas tendem a ter sotaques mais distintivos do que mulheres autistas.
  2. Idade – À medida que as pessoas autistas envelhecem, seu sotaque geralmente se torna mais suave, menos acentuado e menos nítido. Esse efeito é especialmente pronunciado nas mulheres.
  3. Socialização – Os sotaques são muito mais fortes em pessoas autistas que foram educadas em casa [homeschooling], nos autistas que não têm muito contato social ou cujo contato social primário é feito com outros autistas. Pessoas com muito contato social ou cujo trabalho envolve interação frequente com uma variedade de pessoas diferentes tendem a apresentar sotaques autistas menos perceptíveis.
  4. Carreira/Formação – Se você tem um trabalho que exige grande desempenho social e inclui coisas como oratória, atuação, canto, dublagem, atendimento intensivo ao consumidor, liderança, debate ou apresentação, seu sotaque será menos acentuado. Esse efeito é particularmente significativo em atores e artistas, que muitas vezes não apresentam o sotaque de autista.
  5. Intensidade dos sintomas – Quanto mais comparativamente brandos forem os seus sintomas de autismo, menos marcante tende a parecer o seu sotaque. Autistas com distúrbios significantes tendem a ter os sotaques mais fortes.

Por que é que existe um sotaque autista?

Em verdade não faço ideia, mas desde quando isso já impediu um autista na internet de especular indomitamente a respeito de algo relacionado ao autismo? Se quiséssemos saber a resposta de verdade, teríamos de fazer um trabalho científico à vera. Seria necessário comparar-nos com a população em geral, com outras pessoas que têm transtornos do neurodesenvolvimento, analisar sotaques regionais, analisar os efeitos por entre diferentes idiomas, isolar a multiplicidade de fatores envolvidos na formação do sotaque, coletar amostras de áudio cuidadosamente selecionadas de uma gama diversificada de pessoas e uma série de outras coisas que, para ser bem franco, não valem nem o tempo nem o esforço necessários para realizá-las.


Dito isto, tenho algumas patadas da intermediária ideias bem-informadas a respeito.

  1. Falta de assimilação natural - Se eu tivesse que dar meu melhor palpite, seria este: as pessoas autistas não copiam nem imitam naturalmente seus pares com a mesma eficiência, rapidez ou precisão que as pessoas não autistas. A maioria das pessoas adquire seu sotaque por meio de um processo de assimilação natural ao ambiente. Aos poucos, com o passar do tempo, por meio do contato natural com outras pessoas, começam a absorver características do vocabulário, da inflexão, da entonação, do ritmo e do estilo das pessoas ao seu redor. Não só as pessoas autistas não são tão boas na imitação subconsciente, como também tendemos a ter menos interação com nossos pares, o que nos dá menos tempo para refinar as características da fala deles à nossa própria. Isso leva a uma situação que tentei ilustrar abaixo. Imagine que este gráfico descreve uma dessas características: os pontos azuis representam pessoas autistas, e os vermelhos, todas as outras. Os pontos vermelhos se aproximam do centro de massa; os pontos azuis também se movem, mas não tão rapidamente nem com tanta precisão.

    Gráfico 2. Distribuição natural dos sotaques no início da vida em sociedade (à esquerda) e após vários anos de contato (à direita). Os pontos em azul representam pessoas com autismo; os pontos em vermelho representam pessoas neurotípicas.

  2. Sotaques aprendidos por fontes irregulares - Embora sejamos lentos para aprender os hábitos e modos de fala dos nossos pares, precisamos encontrar nossos meios de falar em algum lugar. Nas minhas entrevistas, percebi um padrão nos sotaques que parece sugerir onde esse “lugar” poderia estar. Os sotaques autistas tendem a se assemelhar vagamente à dicção, ao vocabulário, à cadência e à pronúncia da mídia que consomem. Se quiseres um exemplo, me vem à mente esse clipe da Dani, do programa “Love on the Spectrum” — uma série criada nas entranhas do inferno para me fazer reviver aquela cena de Breaking Bad em que Walter White grita desesperadamente da parte de trás de um SUV, tentando alertar seu cunhado sobre sua morte iminente. O interesse especial de Dani é animação, e ela provavelmente já assistiu a 10 mil horas de desenhos animados das manhãs de sábado; então, naturalmente, ela fala como uma personagem de desenho animado juvenil. Há provavelmente quatro fatores a causar isto:
    1. Estresse - Para o autista médio, os cenários sociais são difíceis, complexos, estressantes, de alto risco e alta pressão. Não é um ambiente adequado para o aprendizado, pois a maioria de nós está em modo de sobrevivência. O consumo de mídias, por outro lado, é tipicamente pouco estressante, calmante e ocorre em um ambiente que favorece o aprendizado, o que significa que é muito mais provável que aprendamos ativamente e adotemos maneirismos, hábitos, dicção e ritmo das pessoas que aparecem nos nossos livros, filmes, programas de TV e videogames favoritos.
    2. Preferência - Outro fator importante é que de fato gostamos das pessoas que aparecem nas ficções que consumimos, e queremos ativamente imitá-las. Muitas vezes, o mesmo não pode ser dito sobre nossos colegas, frequentemente por motivos bastante justificados. É natural que, ao escolhermos o que ou quem imitar, provavelmente prefiramos algo de que gostamos em vez de pessoas de quem não gostamos.
    3. Tempo de exposição - Há dois fatores importantíssimos que são necessários para explicar esse conceito. O primeiro é que as pessoas autistas tendem a ser marginalizadas socialmente, sofrer bullying e ficar isoladas de seus colegas. O segundo fator é que ainda não desenvolvemos a tecnologia que permitiria que livros, filmes e programas de TV praticassem bullying contra adolescentes autistas. Esses dois fatores criam uma situação na qual você provavelmente passará mais tempo com as pessoas das mídias que você consome do que com seus colegas. Se você passar 10.000 horas maravilhosas da sua vida com o Naruto para cada 500 que passa dolorosamente com seus colegas, é muito mais provável que você adote os trejeitos do Naruto. Isso, caso você esteja se perguntando, é provavelmente um dos principais motivos pelos quais aquele garoto esquisito da sua turma, que começava a gritar e arremessar as cadeiras quando o refeitório ficava muito barulhento, andava por aí com os dois braços esticados para trás.
    4. Falta de alternativas - Muitos autistas precisam de instruções explícitas, orientação e que as coisas sejam divididas em pequenas partes fáceis de assimilar. A maioria das pessoas não se dispõe a dedicar tempo para ajudar as pessoas autistas com nada disso e, em vez de ajudá-las, encontra maneiras muito criativas de insultá-las. A mídia consumível, no entanto, pode ser pausada, rebobinada, assistida novamente, reavaliada, repetida e reanalisada com uma comunidade de anônimos online cuja capacidade de discutir as minúcias dos personagens parece quase inexaurível.
  3. Roteirização - Esse é um mecanismo de defesa muito comum entre pessoas com autismo. Envolve principalmente planejar, ensaiar, preparar e praticar conversas antes de realmente tê-las. Comecei a fazê-lo por volta dos onze anos e não parei até bem depois dos trinta. A razão pela qual as conversas muitas vezes parecem planejadas, ensaiadas e preparadas é porque há uma chance bem grande de que, de fato, elas mais ou menos tenham sido. Antes de encontrar alguém, geralmente repasso centenas de conversas e assuntos diferentes que possam surgir, para que eu possa me preparar, planejar e praticar como parecer estar falando tal e qual uma pessoa normal. Grande parte do motivo pelo qual parece que a pessoa autista está “fazendo pausas [para pensar]” enquanto fala é provavelmente porque ela está, literalmente, fazendo isso mesmo.
  4. Insensibilidade contextual - Autistas tendem a ter bastante dificuldade em alternar entre contextos, em identificar em qual contexto se encontram e em perceber como esse novo contexto altera as regras sociais vigentes. O devido jeito de falar, o que se deve dizer, que palavras se devem usar e o volume de voz adequado costumam estar em constante mudança, num fluxo amorfo. Se o seu cérebro não conseguir compreender esse fluxo, é provável que você fale de jeitos estranhos, que não se adequam ao contexto.
  5. Rigidez - Muitos de nós estamos presos aos nossos hábitos e não gostamos de mudanças. Frequentemente, aprendemos regras como a pronúncia das palavras e o uso da gramática logo no início de nossas vidas, em ambientes educacionais formais, e fazemos do ato de seguir essas regras o mais fielmente possível nossa missão de vida. Isso significa que adaptar seu sotaque ao dos colegas por escolha intencional é uma forma de mentir e de infringir regras, um ato que não podemos tolerar.
  6. Neurodesenvolvimento - O neurodesenvolvimento é realmente complicado. Muitas diferenças cerebrais geram padrões de fala distintos. O autismo provavelmente não é uma exceção. O autismo também tende a prejudicar a linguagem, então provavelmente afetará a fala, sei lá, não sou neurocientista. Perguntei a alguns neurocientistas amigos meus e disseram que isso é plausível. Quando várias coisas afetam o cérebro, provavelmente afetam a maneira como as palavras saem dele. Provavelmente há algo muito legal e interessante nisso, mas está tão fora da minha área de especialização que nem vou tentar explicar.
    E aqui está. É por isso que falamos estranho, creio eu.

    Uma última nota: Se você quiser suavizar seu sotaque de autista, faça aulas de teatro, faça terapia vocal, tente imitar seus colegas de propósito, passe bastante tempo com pessoas “normais”, pare de assistir a animes, grave a si mesmo e analise minuciosamente sua voz até seus ouvidos começarem a sangrar — ou, melhor ainda, não faça nada disso.
    Não sou sua mãe, mas se você quer um conselho: em verdade, o sotaque do autismo não é grande coisa. Você provavelmente pode fazer algumas mudanças de baixo esforço que tornarão seu jeito de falar 10 a 20% menos irritante, mas qualquer melhoria além disso vai ser uma batalha árdua e implacável. A realidade é que, se você tem autismo, você será estranho por, tipo, uns cinquenta outros motivos. Se você reduzir essa lista para apenas quarenta e nove motivos, é improvável que isso mude as coisas de forma significativa. A menos que sua carreira dependa disso, porque você é artista ou ator, não se preocupe em ir além do básico. As pessoas na sua vida com quem vale a pena se importar não vão se importar que você fale como uma personagem de Jane Austen rediviva. Se você tiver outras qualidades que compensem isso, elas provavelmente até aprenderão a achar isso charmoso. Mas, mais importante ainda: pare de se preocupar com sua voz. Ninguém se importa com ela da mesma forma que você.
    Além disso, não vou responder às suas mensagens perguntando se você tem sotaque de autista; literalmente não há modo adequado de eu responder a essa pergunta.


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